sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Roberval inova

Ao contrário da receita de sucesso da maioria dos homens da prancheta, o técnico do Brasiliense aposta em treinos exóticos, com direito a três gols e 12 jogadores em cada lado, para encontrar o melhor esquema para o time

É comum ouvir no discurso dos jogadores que, quando há uma troca de treinador, isso requer um tempo mínimo para sentir a mudança de filosofia do novo comandante.

No entanto, com Roberval Davino, a máxima parece não funcionar. Isso porque, desde a saída do tranquilo Ivo Wotmann — há oito dias —, os atletas sentiram uma mudança drástica no estilo e treinamentos do novo técnico.

Afinal, o que dizer de dois times montados com 12 jogadores? E tendo o objetivo de marcar o gol em três traves? É bom ir se acostumando, porque Roberval não pretende mudar.

“É um treino onde você busca alternativas de jogo”, tenta explicar o comandante. Para quem já trabalhou com o treinador em outra oportunidade, dividir o campo de jogo com mais atletas do que o comum e mirar três gols ao mesmo tempo não é novidade. No entanto, para quem não conhece o jeito Roberval de treinar, o início é complicado.

“É uma questão de adaptação. A princípio a gente fica meio surpreso mesmo, mas ele sabe melhor do que a gente o que está fazendo. Ele é o comandante e o que decidir vamos acatar”, admite o lateral direito Cicinho.

O estranhamento do camisa 2 não é para menos. Acostumado a atuar próximo à linha lateral do gramado, ele foi o escolhido por Roberval para compor o ataque ao lado de Enílton.

Com experiência de sobra, o meia Iranildo aprova os treinamentos diferenciados. Para ele, o método do novo comandante é eficaz.

“Quando as coisas não estão dando certo, tem que mudar mesmo. Eu já conheço o estilo dele (técnico), mas para alguns jogadores isso é novidade. Mas o estilo agrada, até porque aqui tem atletas que facilitam esse treino. São muito versáteis”, aponta o camisa 10.

Nem tão experiente assim, o zagueiro Moacri faz uso de seu primeiro contato com Roberval, no ano passado, para dar crédito à fórmula trabalhada por ele.

“É diferente e acredito que seja válido, sim. Ele não repete nenhum tipo de treinamento. A gente procura se entrosar rápido lá dentro e fazer o que ele pede”, afirma o zagueiro.

Para os jogadores mais novos, o treino do novo comandante ainda é novidade. Ontem, durante uma troca de regra no meio da atividade, o volante Ferrugem, 22 anos, pediu um tempo para tirar dúvidas. Foi prontamente atendido por Roberval e a atividade seguiu normalmente.


Explicação

“É um treino onde você busca alternativas de jogo. Na mesma atividade trabalhamos viradas de bola, a marcação forte e as finalizações. Pelo menos 40% dos jogadores conhecem esse tipo de treino. Vim para cá para mudar, mas a única troca que fiz no primeiro jogo foi colocar o Jhonatan (garoto vindo do Santa Maria). Eu tinha algumas informações sobre ele e resolvi arriscar. Pelo que ouvi, todo mundo gostou”,

Roberval Davino, técnico do Brasiliense

No ano passado, o técnico Roberval Davino deixou o comando do Brasiliense após não conseguir encaixar a equipe com os desfalques e as transferências. Na ocasião, o treinador apostou numa escalação muito modificada.

Jogadores acostumados a atuar na posição de origem tiveram de se desdobrar para exercer uma outra função. Com o tempo, Roberval percebeu que estava perdendo o controle sobre o grupo e, mais tarde, foi demitido do cargo.

Em 2010, ele já usou da estranha tática. No primeiro jogo no comando da equipe, no empate por 2 x 2 com o Guaratinguetá, ele sacou o zagueiro Fábio Braz no intervalo para promover a entrada do volante Ferrugem. Para recompor o sistema defensivo, improvisou Deda na zaga.

Visivelmente com dificuldades de adaptação ao estilo Roberval de comandar, os jogadores do Brasiliense não contestam os treinos exóticos do novo treinador. Ainda que as dúvidas surjam durante as atividades, eles acreditam que a forma seja benéfica ao grupo.

“O Roberval já conhece a filosofia do clube. Esse tipo de treino agrada, sim, até porque temos jogadores aqui que facilitam esse tipo de movimentação”, garante o camisa 10 Iranildo.

Sem conhecer bem a forma de trabalho do atual treinador, o lateral direito Cicinho é um dos que mais tem penado para se adaptar à nova função. No treino de quarta-feira, ele atuou praticamente como um segundo atacante. Ontem, ele voltou a ser testado mais à frente e disse estar tranquilo quanto ao posicionamento.

“Ele ainda não definiu a forma que vamos jogar, mas se vocês lembrarem, na partida da final do Candangão, eu já atuei como um ponta direita. Estou aqui para jogar onde ele achar melhor”, avisa Cicinho.

Quem está rindo à toa com a volta do técnico Roberval Davino é o zagueiro Moacri. No clube desde o ano passado, o defensor trabalhou com o comandante em 2009 e era um dos homens de confiança. Bastou uma semana do retorno do treinador para que Moacri voltasse ao time titular — algo que não ocorria desde a saída de Roberval.

Como prova de fogo da fidelidade, ele explicou o treino exótico. “Eu conheço bem. É uma atividade legal, que trabalha bastante a parte defensiva. Ele sabe que jogar contra o Bahia é complicado, por isso montou esse esquema”, explica o zagueiro.

Roberval Davino é considerado um técnico pardal. É adepto a filosofia de fazer modificações audaciosas nos times por onde passa. Algumas tentativas, em sua maioria, são arriscadas.

Jogadores de origem, fixos, assumem outras posições totalmente opostas. Em 2009, no Brasiliense, adotou essa postura. De volta ao clube de Taguatinga, na tentativa de reerguer o time na Série B do Brasileiro, Davino dá início, outra vez, a essa saga de formação tática.

O treinador, no entanto, reluta as críticas. Afirma que as alterações constantes não vão confundir os jogadores e as mudanças não são drásticas, apenas dentro do que há de melhor do grupo.

"As modificações são usadas quando se pretende melhorar ou quando a situação não está boa." Diante do Guaratinguetá, sábado passado, no Serejão, o time entrou em campo no 4-4-2. Já contra o Bahia, em Pituaçu, neste sábado (21), Roberval Davino use provavelmente o 3-6-1. A base será mantida, porém com atletas em funções distintas.

No treino embaraçoso dessa quinta-feira (19), feito com três gols na tentativa de "estimular o raciocínio de jogo, praticar ações rápidas e diminuir os espaços do adversário", como dito em sua página no Twitter, o técnico amarelo recuou o volante Deda para a defesa, o lateral-direito Ruy Cabeção avançou para o meio-de-campo e próximo ao sistema ofensivo o também lateral Cicinho, um dos mais surpreendidos pela decisão de Davino.

"Se o professor optar assim ele sabe o que é o melhor", defende Cicinho. "Ele é o comandante, então o que ele decidir temos que aceitar. [A nova posição] É questão de adaptação", acredita o lateral. "Independentemente da formação, o importante são os três pontos e fazer um grande jogo. Já está na hora", cobra Iranildo.

O meia Thiaguinho é o mais novo a compor o departamento médico do Brasiliense. Rosembrick assume a vaga. Os atacantes Aloísio Chulapa, Bebeto e Jean, e o goleiro Guto ainda permanecem em tratamento.

"Temos boas opções e espero que estejam inteiras para render o que elas podem", minimiza Roberval Davino, que avisou aos três a quatro desgastados, segundo as contas dele.

"Evoluindo fisicamente você melhora sua técnica. E ao voltar ou terá de ter adaptação ou ao menos que se entregue por inteiro [para garantir a titularidade]".

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